Hoje eu descobri que cantar no chuveiro é uma necessidade fisiológica do ser humano.
Não tenho conhecimento científico para explicar como esta necessidade é causada, mas acho que os pingos, com o barulhinho do chuveiro e o corpo todo molhado ativam alguma parte do cérebro que, por sua vez, ativam as cordas vocais fazendo com que o ser humano tenha uma imensa vontade de cantar.
Digo isso porque hoje, quando a Luíza foi tomar banho, ela pediu para eu sair do banheiro e fechar a porta.
Mesmo achando estranho seu pedido, resolvi atendê-lo.
Assim que fechei a porta, a Luíza começou a cantoria.
Não consegui entender quais músicas ela estava cantando. Talvez eram músicas que ela aprendeu na escolinha ou então músicas que ela estava inventando. Só sei que ela cantava super empolgada.
O estranho é que eu, tampouco o Marcelo, cantamos no chuveiro. Bom, pelo menos não cantamos alto, que dê para os outros ouvirem.
Quando eu abria a porta do banheiro, a Luíza logo parava de cantar e dizia para eu sair:
- Lichencha, mamãe!
E assim ela ficou parte da manhã, cantando no chuveiro. E eu, dando muita risada com a cantoria.
Conforme eu já descrevi no dicionário Luizês-Português (mensagem do dia 22.05.2005), a Luíza diz “a mim” no lugar do “eu”. Como, por exemplo, “a mim não qué la banho”, “a mim vai fazê o chicau”, e, a frase que eu mais amo ouvir: “a mim adola você”, principalmente em razão desta frase ser pronunciada com entusiasmo e seguida de um caloroso abraço.
Porém, há uma certa diferença entre o “eu” e o “ a mim”.
O “a mim” é primitivo, é mais verdadeiro. Significa eu mesma; eu, do fundo do meu âmago; um EU, assim maiúsculo, infinito, sem limites. O "a mim" está acima de tudo, é egocêntrico, impõe suas vontades, é desobediente e não está nem aí para as convenções sociais.
Já o “eu”, é um “eu” mais educado, mais civilizado. É um “eu” sabendo da existência do próximo. Um “eu” limitado, restrito, lapidado, obediente.
Enquanto a Luíza cresce, vai, aos poucos, trocando o “a mim” pelo “eu”.
Até que ponto será que devo ensiná-la a ser menos “a mim” e mais “eu”?
E nós, quando devemos deixar de sermos “eu” e sermos mais “a mim”?
Esta mensagem é de suma importância para quem convive com a Luíza e pretende ter momentos aprazíveis com ela.
Existem palavras que são rigorosamente proibidas de serem pronunciadas perante a presença da Luíza, pois provocam algumas reações adversas, podendo prejudicar o bom convívio com a mesma.
Eis as palavras (anotem e não esqueçam):
Vovó – Esta palavra faz a Luíza ficar com saudades das vovózinhas, provocando os seguintes sintomas: manha, birra e desobediência.
Nescau – Este termo causa uma vontade compulsiva da Luíza em beber o referido achocolatado em pó. Portanto, se você não tiver como oferecer Nescau, não pronuncie este vocábulo.
Chocolate – Assim como ocorre com o Nescau, a expressão chocolate também provoca na Luíza o desejo de ingerir este alimento. Deste modo, por favor, se abstenha de pronunciar esta palavra quando você não tiver chocolate para oferecer a ela.
Remédio – Assim que a Luíza escuta esta palavra, ela começa a gritar “Qué memédio, qué memédio”. Portanto, se não houver necessidade dela ser medicada, não pronuncie esta palavra.
João Pedro – Ao ouvir esse nome, a Luíza começa a dizer “O Juão Pedo pegou meu tico-tico” e fica brava ao lembrar disso. Já faz mais de três meses que isso ocorreu, o que corresponde há mais de 10 anos, se comparar a
idade da Luíza à minha. Mas, até hoje, ela fica brava ao lembrar que o coleguinha pegou o tico-tico.
Chupeta ou Pepê – Por favor, não pronuncie esta palavra! Os sintomas são parecidos com aqueles causados pela expressão “vovó”, porém, em nível mais elevado.
É incrível como, após nos tornamos mães, algumas coisas passam a ter outro significado em nossas vidas. Até mesmo um simples chafariz.
Eu nunca havia dado importâncias aos chafarizes.
Ao contrário, sempre os achei um desperdício, pois, com tantos problemas sociais, não me parecia razoável ficar gastando dinheiro público apenas para tentar embelezar as cidades.
Além disso, sempre fiquei intrigada com o funcionamento deles.
Desculpe a ignorância, mas tem algum motor para fazer jorrar a água? É utilizada energia elétrica? Se for, pior ainda, pois maior é o gasto.
Entretanto, em razão da Luíza, passei a admirá-los.
Toda vez que a Luíza passa por algum chafariz, ela grita empolgada:
- A água gandi!
No caminho para a escolinha, passamos por um chafariz na praça Godoy Betônico (Que nome é esse!) e outros na Praça da Liberdade.
E, agora que a Luíza não usa mais a chupeta, ela vai perguntando se estamos chegando na “água gandi” e, quando passamos pelos chafarizes, ela faz a maior festa.
Assim, na hora de arrumá-la para ir à escolinha, eu digo que vamos ver os chafarizes.
Só assim para convencê-la a pôr a roupa (tarefa difícil).
E assim, da indiferença, eu e os chafarizes nos tornamos amigos e cúmplices.
Dizem que a beleza está naquilo em que temos vontade de compartilhar com quem amamos. É verdade. Hoje, quando vejo algum chafariz, não deixo de pensar em como a Luíza iria ficar feliz em vê-lo.
Só uma coisa não mudou: continuo intrigada em saber como eles funcionam. Alguém poderia me explicar?
Não bastasse a decepção narrada ontem, quando a Luíza ficou toda feliz com a blusa do coxa, houve outro episódio desagradável.
Na volta da escolinha, após buscarmos o Marcelo no trabalho, a Luíza, ainda no carro, pergunta para ele:
- Papai, vamos jogar lelebol? Você tem roupa de lelebol, né?
- Jogar futebol? Vamos.
E eu, percebendo o entusiasmo da Luíza para jogar futebol, digo:
- Vamos jogar sim.
Mas sou rapidamente excluída pela Luíza que diz:
- Você não. Só eu e papai. Você não tem roupa de lelebol.
O Marcelo, ficou tão feliz com a “tendência” coxa branca da Luíza, que, chegando em casa, ligou para o vovô, também coxa branca, contar o episódio.
Só a mamãe não gostou.
Prefiro ficar sem jogar a por a roupa de "lelebol". Arg!
No carro, indo para a escolinha, a Luíza começa a cantar:
- Meu Juão, meu Juão, acende a foguela do meu colação.
Eu, tentando corrigir:
- Luíza, não é meu João, é São João.
- Num né seu, é meu o Juão.
E continua cantando:
- Meu Juão, meu Juão, acende a foguela do meu colação ...
Hoje, como estava um pouco frio (coisa que aqui em Belo Horizonte não é normal. Graças a Deus!), resolvi colocar uma blusinha de manga comprida por baixo do agasalho da Luíza, para ela ir pra escolinha. E, como o uniforme é verde, coloquei uma blusinha do Coritiba nela.
O problema é que ela ficou tão feliz com a blusinha do coxa, que ela não quis pôr mais o agasalho por cima e, mais ainda, pediu para eu tirar foto!
Isso é influência do papai!
Ontem, a Luíza estava na sala, quietinha.
Isso não é um bom sinal, pois toda vez que ela fica muito tempo quieta, é porque está aprontando algo.
Preparei meu espírito e fui até a sala.
Não deu outra, lá estava ela, no meio da bagunça, com brinquedo por toda parte. Havia peças de lego, de quebra cabeça e papel rasgado por toda a sala.
Até que dessa vez o susto não foi tão grande. Já tive surpresas mais desagradáveis.
Um dia encontrei a sala toda com tinta azul. Outra vez, ela alagou o banheiro e parte da sala, pois havia aberto a torneira e tampado o ralo da pia com papel higiênico. Semana passada, encontrei a TV toda desenhada. Ainda bem que deu pra limpar. Essas são as que eu me lembro agora.
Dessa vez, estava somente bagunçado, mas bota bagunça nisso.
Assim que eu entrei na sala e vi aquela bagunça, a Luíza me olhou, olhou a bagunça, voltou a me olhar e, percebendo minha cara de desgosto, tenta se livrar da bronca:
- Mamãe. Você é liiinnnda. Você não é chata, né? Você é liiiinnnnda.

Ontem, quando deitamos para dormir, a Luíza, com as mãozinhas no meu ouvido, como se fosse contar um segredo, susurra no meu ouvido:
- Eu te amo.
- Você me ama, meu amor!
- A mim adola você.
- Que lindo! Diz isso pro papai também.
- Não, papai tá com tomada.
- Papai tá com o quê!
- Tá com tomada.
- Tomada?
- É papai tá com tomada, ta dodói!
- Ah, papai está com pomada!
E o Marcelo, ouvindo falar sobre ele, pergunta pra Luíza:
- O que você está falando de mim?
E ela responde:
- É porque eu te amo.
A Luíza é ou não é a coisa mais fofa desse mundo?
Todos estes fatos ocorreram ontem (domingo).
Chamando a atenção nº 1:
Eu, preparando o “chicau”, deixei cair a tampa e um pouco de achocolatado no chão.
A Luíza vem correndo e, com o dedo indicador levantado, me diz:
- Mamãe, eu to vendo! Você ta fazendo bagunça! Que coisa!
Chamando a atenção nº 2:
A Luíza derrubou “chicau” no sofá e eu, sem perceber, sentei em cima, sujando minha calça do pijama.
Vou até o quarto me trocar e a Luíza vem atrás de mim dizendo, também com o dedo levantado:
- Mamãe, cocô é no penico!
Chamando a atenção nº 3:
A Luíza começa a espirrar e após o terceiro espirro, ela me cutuca e diz:
- Mamãe, fala saúde, ein!
Eu mereço!